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História da Lapa

Se você fechar os olhos, certamente poderá ouví-los...

Existe emoção em cada canto desta cidade que, apesar de pequena, tem uma grande história e guarda grandes segredos.

A Lapa nasceu do tropel ensurdecedor dos cascos dos animais nas Ruas das Tropas, dos mugidos do gado, dos gritos de comando dos homens, do som tonitruante do berrante. Nasceu do cansaço, da fadiga, da audácia, da coragem e da força dos tropeiros, que abriram caminhos pelas matas, derrubando florestas, atravessando rios, superando obstáculos,às vezes sacrificando suas próprias vidas.

A Lapa foi, em um determinado momento de sua existência, palco de um grande confronto bélico entre maragatos e as forças republicanas - episódio considerado como o mais importante, dentro de uma das mais sangrentas revoluções latino americanas - acontecimento militar, que contribuiu para a consolidação da República.

Maragatos, povos oriundos da região de Maragateria, Espanha, era a denominação que os legalistas gaúchos davam aos membros do Exército Libertador, liderado por Gumercindo Saraiva e que eram contrários ao pensamento republicano.

O conflito que culminou nestas ruas pelas quais você está passando, teve início no Rio Grande do Sul pela disputa do governo local e acabou se alastrando pelos três estados sulinos estendendo-se até o Rio de Janeiro. A situação então vivida por Marechal Floriano Peixoto, o "Marechal de Ferro" tornou-se caótica, levando o Brasil a uma crise sem precedentes. Perseguidos pela Divisão do Norte composta por republicanos, os maragatos deixaram o solo gaúcho para, articulados com a Marinha, formarem em Desterro, atual Florianópolis, um governo provisório. A partir daí organizaram marcha rumo ao Rio de Janeiro com o objetivo de se oporem a Floriano Peixoto, em uma ação que implicaria na invasão do Estado do Paraná. Com as quedas de Tijucas e Paranaguá, seguindo a tomada sem resistência de Curitiba, a Lapa passava a ser o último obstáculo para as forças contrárias à República.

Em 1894, a cidade contava com aproximadamente 200 casas dispostas ao longo de 4 ou 5 ruas, que se formaram no sentido por onde passavam as tropas que, desde Viamão, seguiam às feiras de Sorocaba. Ironicamente, a Lapa estava situada em uma região que proporcionava condições adversas para resistir a uma investida inimiga. Entretanto, no dia 17 de janeiro de 1894, uma legião de 639 homens formada por forças regulares e de patriotas, chefiada pelo Coronel Antônio Ernesto Gomes Carneiro, enfrentava bravamente as forças revolucionárias formadas por cerca de 3.000 combatentes.

A Lapa sitiada resistiu durante 26 dias. Mesmo ferido mortalmente, carneiro repetia a seus homens "Resistência, resistência a todo transe" - "Resistamos camaradas, porque nós, soldados, não temos direitos mas apenas deveres a cumprir, e os deveres de um soldado resumem-se num único: queimar o último cartucho e depois morrer".

A coragem desta pequena cidade e de seus "heróis" proporcionou ao governo central de Floriano Peixoto, na época símbolo da República e da legalidade, o tempo suficiente para angariar as forças necessárias para deter as forças federalistas. A República que a Lapa consolidou com Carneiro, Dulcídio, Amintas de Barros, Lacerda e outros bravos não era apenas um projeto de Benjamim Constant, mas um sonho dos que queriam um Brasil livre, governado por brasileiros.

Agora dê uma olhada nestes casarios antigos e na paisagem plástica destas ruas, praças e lampeões. Se você fechar os olhos, certamente poderá ouvir os gritos de bravura que um dia estiveram presentes em todos estes lugares.



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